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Passam os primeiros comediantes daquela comédia pobre: homens de mulheres, de pernas peludas à mostra, para que o equívoco se não consuma, homens gordos, acarnavalados com cartolas, com máscaras de carvão na cara, com a exibição de uma degradação voluntária - arrepio-me, confranjo-me, tento achar o significado deste prazer no rebaixamento do cómico, neste aceno à animalidade, no gosto da assunção do grotesco, como se no homem não se não calasse uma saudade do reles, um eco grosso de enxúndia.

Vergílio Ferreira, Aparição

Eis-me procurando a verdade primitiva de mim, verdade não contaminada ainda da indiferença. Mas onde esse sobressalto de um homem jogado à vida no acaso infinitesinal do universo? Se o meu pai não tivesse conhecido a minha mãe; se os pais de ambos não se tivessem conhecido; se há cem anos, há mil anos, há milhares e milhares de anos um certo homem não tivesse conhecido certa mulher; se... Nesta cadeia de biliões e biliões de acasos, eis que um homem surge à face da Terra, elo perdido entre a infinidade de elos, de encruzilhadas - e esse homem sou eu...

Vergílio Ferreira, Aparição

Sonho para sempre vivo, talvez o que inquietava o homem era a descoberta, não reconhecida ainda inteiramente, de que a voz ouvida era essa, de que o sonho atirado à infinitude não trazia outra resposta senão a que nele se pusera, de que os monstros e a glória e o terror e a grandeza fantástica do seu eco eram o prodígio que habitava o próprio homem e com ele se consumia e renascia.

Vergílio Ferreira, Aparição
... de quem arriscou as ideias e não as gastou em palavras

Vergílio Ferreira, "Aparição"
Como ter ideias sem o calor do desejo para elas? Desce sobre ti a mortalidade fria. Que significa haver novas ideias com o sangue quente que nas outras já arrefeceu. Tens quando muito a longínqua memória delas. São ideias que já não fazem mover aquele de ti que nelas tinha o seu sangue com que eras vivo. Uma ideia começa no teu sistema muscular de muitos graus centígrados e morre na pele engelhada da tua múmia. Entre os dois ela não mudou senão no que de ti arrefeceu. Tens ao menos alguma ainda viva na memória? Mete-a numa botija e vê se amornas com a sua tepidez a tua miséria tolhida.

Vergílio Ferreira, in "Escrever"

Somente no meu impulso para ultrapassar as nuvens, para vencer o espaço da minha vida, eu achava o céu vazio.

in Aparição, Vergílio Ferreira

Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Mas nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. Venho à varanda e debruço-me para a noite. Uma aragem quente banha-me a face, os cães ladram ao longe desde o escuro das quintas, frenem no ar os insectos nocturnos. Ah, o sol ilude e reconforta. Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objectos inertes, dominados, todos revelados às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluido inicial e a presença estremece na sua face de espectros... Mas dizer isto é tão absurdo! Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio, meu irmão das palavras que já sabes um vocábulo para este alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já vinha escrito... E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e é fugaz a invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa frente.

A mancha de luz fosforece como o vapor de uma lenda. Um bafo quente sobe dessa água, sagra-me de silêncio como um dedo na fronte. E outra vez agora me deslumbra, em alarme, a presença iluminada de mim a mim próprio, o eco longínquo das vozes que me trespassam. Como é dificil, miraculoso, pensá-lo. Quanta coisa aprendi e sei e está aí à minha disposição quando dela preciso. Mas esta simples verdade de que estou vivo, me habito em evidência, me sinto como um absoluto divino, esta certeza fulgurante de que ilumino o mundo, de que há uma força que vem de dentro de mim, me implanta na vida necessariamente, esta totalização de mim a mim próprio que não me deixa ver os meus olhos, pensar o meu pensamento, esta verdade que me queima quando vejo o abssurdo da morte, se pretendo segurá-la nas minhas mãos, revê-la nas horas do esquecimento, foge-me como fumo, deixa-me embrutecido, raivoso de surpresa e de ridiculo... E, todavia sei-o hoje, só há um problema para a vida, que é o de saber, saber a minha condição, e de e restaurar a partir dai a minha plenitude e a autenticidade de tudo - da alegria, do heroismo, da amargura, de cada gesto. Ah, ter a evidência ácida do milagre que sou, de como infinitamente é necessário que eu esteja vivo, e ver depois, em fulgor, que tenho de morrer. A minha presença de mim a mim próprio e a tudo que me cerca é d dentro de mim que a sei - não do olhar dos outros. Os astros, a Terra, esta sala, são uma realidade, existem, mas é através de mim que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo. Como é possível? Conheço-me o deus que recriou o mundo, o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias, realizei em mim um prodigio de invenções, descobertas, que só eu sei, recreiei à minha imagem tanta coisa bela e inverosímel. E este mundo complexo, amealhado com suor, com o sangue que me aquece, um dia, um dia, - eu o sei até à vertigem - será o nada absoluto, dos astros mortos, do silêncio. Mas tudo isto é quase falso, é quase estúpido só de estar a pensá-lo, a dizê-lo, porque a sua evidência é um milagre instantâneo.

A lua subiu ao céu quente, a sua água escorrega-me agora pelo corpo. Lavo nela as minhas mãos e é como se me purificasse num tempo anterior à vida, num luminoso halo de coisas por nascerem. Súbito, neste silêncio mineral, a porta da sala range e o vulto da minha mulher, o seu corpo franzino, esfuma-se na sombra. Senta-se ao meu lado, estende os pés ao luar sem dizer nada: ao fim de muitos anos aprendemos a verdade, na aparição de graça, num limiar de presença, antes que sobre a Terra fosse pronunciada a minha primeira palavra. Tomo as as suas mãos nas minhas e no deslumbramento da noite abre-se, angustiada, a flor da comunhão.

Vergílio Ferreira, Aparição