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O projecto da glória e os domingos de chuva


«O domingo é o dia dos carrinhos de bebé a percorrer o jardim, da casa dos avós ou dos sogros, dos letreiros "fechado", da pastelaria de fabrico próprio com a parede em azulejo. Há o programa de humor na televisão ou a sala de cinema aquecida, o pequeno-almoço com pão de ontem, o jantar simples que não dê demasiado trabalho aos pés que se arrastaram a tarde inteira. Não é dia de sonhar o Nobel ou alinhavar os planos para a revolução. Sobretudo se chove.

Há uma vida que o boémio tem este drama. O domingo até pode ser o dia em que Deus nosso senhor descansou, mas podia ter deixado uns Guronsan. Porque o silêncio arrastado das ressacas lhe ensurdeceu o meticuloso projecto de obtenção da glória.

A boémia, tal como este vosso servo a entende, não é o puro e simples desacerto. Um tipo que se limita a frequentar recantos da noite e a comparecer tardiamente e com olheiras no local de trabalho não é, por si só, um boémio. O desacerto do verdadeiro espécime é maior, permanente, desproporcional. O boémio não apenas chega tarde; chega maior ou menor. Ele não cabe. Engorda e definha como uma planta subaquática que se arrisca a passar os anos entretida com o seu movimento que se esquece do mundo.

Os dias passam. Segunda, terça, quarta. O boémio dorme sucessivamente menos, é cada vez mais desmesurado no que diz, no que faz, no modo como sente. Quinta, sexta. Há quem ache que é um génio; ele próprio começa a convencer-se disso. Sábado: escreve um poema épico à tarde, envia-o para a Academia Sueca e convoca um jantar faustoso para celebrar, anticipadamente, a proeza. Depois, a noite rola e ele bebe e dança, entre rajadas de aforismos que parecem insaciáveis em superar-se. Por volta das seis da manhã, ele já só aguarda pelas papeladas do Vaticano: é oficial. Vai ser santificado em vida.

Felizmente, no dia seguinte, acorda em casa. Tem o pijama vestido do avesso, mas dorme na sua cama, a porta de casa está fechada, os móveis e as pratas estão lá todos e não tem nenhuma gorda menor com maquilhagem esborratada estendida ao lado. Que dia é hoje?, pergunta-se o super-herói estragado. E, algures, a paisagem imóvel da cidade na vidraça, o trabalhar do remorso pelos sonhos de grandeza de véspera, canibalizando-se dentro de si, qualquer coisa lhe dirá, com certeza absoluta, ser domingo.

O boémio vai pôr-se debaixo do chuveiro, preparar uma espécie de pequeno-almoço com o pão de ontem e cair no sofá durante o programa de humor. Há-de ir desinchando ao longo do dia até servir dentro do próprio corpo, fazer meia dúzia de telefonemas a amigos e à família e, eventualmente, começar a reunir notas para o seu novo projecto revolucionário: estar à altura da normalidade.»


Alexandre Borges, Atlântico n.º 35

A barba do herói por fazer


Há uma relação intrínseca entre o boémio e a sua barba. O boémio usa barba de três dias. Até aí, isto é, até à septuagésia primeira hora dessas setenta e duas, considerada barba feita. Mesmo que dê para arear panelas, acender fósforos, lixar caixilhos em criptoméria com ela. Acima dos três dias, sobe-se de nível: de boémio passa-se a professor Fernando Carvalho Rodrigues, Pai Natal, roady dos ZZ Top. Por esta ordem.

O boémio não faz isto por estilo, querer dar um aspecto negligé, imitar o Mourinho. Ainda o Special One dava aulas de educação física na C+S do Portinho da Arrábida, já ele usava aquele sombreado capilar com a mesma regularidade dum nariz, duns olhos ou duma boca. Fá-lo porque só uma a cada três manhãs salta da cama em tempo útil. Até lá, pode ter o patrão a ameçá-lo de despedimento, a namorada a gritar que o deixa se lhe continuar a provocar aquela irritação de pele, a mãe a telefonar para perguntar se tem dado uso à Gillette Mach3 que a tia Natália ofereceu pelo Natal em plena reunião de sócios da empresa. Ele não sucumbe.

A barbinha - diminutivo, tenha-se presente, muito másculo - diz com as olheiras, o cabelo desalinhado, o feitio refilão, revolucionário com a Segurança Social em dia, a inócua discordância com a normalidade. E é como um par de botas da tropa, as calças de ganga, um casaco de cadebal, uma edição de bolso do Bukowski: é parte da armadura urbana dentro da qual se esconde a vulnerabilidade do desencontrado.

E há mais. O boémio considera uma franca paneleirice o negócio em torno deste assunto. Antigamente, havia as gillettes com lâmina única, com um corte ao centro que se encaixava no cabo, um aftershave Old Spice que ardesse ainda pior que cheirava e uns lápis manhosos que se espetavem nos corte e que duravam uma vida. Depois e de súbido, vieram as lâminas-gémeas, as três lâminas flexíveis que se adaptavam ao rosto, as cinco daquela que, agora, anunciam o Henry, o Federer e o Tiger Woods. As brauns e as philishave, os hidratantes, os esfoliantes, os cremes para antes e depois. O tanas. O homem que é homem - e o boémio é um - só quer fazer a barba, não ficar com a cara mais macia do que o rabinho dum bebé. E quer viajar sem pagar excesso de bagagem e empenhar mais do que o PIB de Andorra em despesas de higiene mensais. E, sobretudo, ele reteve a informação fundamental: amanhã, a barba vai crescer outra vez; portanto, para quê ter todo o arsenal de um samurai de roda dela?

A barba por fazer é, finalmente, a aproximação possível do boémio ao herói de aventuras clássico. Como poderia ele chegar a convencer uma mulher de ter qualquer coisa de rebelde sem causa, de Indiana Jones dos pequeninos, se andasse com a cara no lastimável estado dum promissor bancário, dum bem sucedido corrector da bolsa que arrisca diariamente a vida num novíssimo jogo da Playstation?

Alexandre Borges, Atlântico, n.º 34

As meretrizes de estrada


O que é feito delas? Daquelas velhas gordas e desdentadas que, sentadas em cadeiras de praia, com coloridos chapéus-de-sol, vendiam felicidade a quilo aos automobilistas que passavam? Quem não sem lembra delas? Quem não se lembra dos agitados e engarrafados arbustos à beirinha das nossas estradas? Chegou o desenvolvimento, as auto-estradas e as brasileiras. Foi-se com elas a alcoviteira. Senhora de generosas coxas. De fecundos e saltitantes pimponhos que serviam de marcos de estrada à antigas nacionais. Esforçada amante de imponente presença. Cada centrímetro compreendia quilos de volúpia. Podia não ser perfeita. Mas o que lhe faltava em dentes sobrava em vontade de agradar.

Desapareceram. Sumiram. Danos colaterais da via verde e da marcha do progresso. E, sobretudo, vítimas da globalização. Russas, lituanas, peruanas, checas e brasileiras. Especialmente brasileiras. As nossas Donas Alziras e Donas Márcias deram lugar a mirradas Darlenes e Vânias. Gaiatas, made by Pitanguy, com certo travo a fast food de estação de serviço. Vieram as brasileiras com os seus apartamentos privados e foi-se a formosa Dona Alice, que, ao quilómetro 54 da recta do infantado, dispensava prazer ao metro quadrado.

E o país chora a laranja algarvia e a pêra do oeste. Chora a frigideira, o torresmo e a bola de Berlim com creme. Chora o dumping dos barcos espanhóis, da carne argentina e dos iogurtes franceses. Chora a globalização, a ASAE e a legislação comunitária. Chora por tudo. Pelas meretrizes de estrada, verdadeiras filhas da terra, não chora nada.

"É o mercado", dizem-me os entendidos. "As estrangeiras estavam mais bem preparadas". Como as laranjas espanholas, conta mais a embalagem do que o sumo. Abriram-se as portas e lá vieram elas. No mercado da felicidade quase não sobrou produto nacional. Ficaram mais tristes as bordas das estradas e abandonada a moita do quilómetro 54.

É ingrato, o país. Quanto desassossego aqueles regaços não consolaram? Quantas lágrimas aquelas parras não secaram? Quantos maridos mal cuidados não foram ali confortados?

A culpa não é do desenvolvimento, nem da globalização, nem tão pouco das brasileiras. A culpa é do povo que, deslumbrado, até na cama vive acima dos suas capacidades.


Rodrigo Moita de Deus, Atlântico n.º 34